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Saúde

Conheça a fibromialgia: o que é e o que fazer

A fibromialgia é uma síndrome (conjunto de sinais e sintomas) que se manifesta com dor no corpo todo, entre diversos outros sintomas, principalmente na musculatura e muitas vezes nas articulações. É vista em uma boa parcela de pacientes que vão a um consultório de Reumatologia e na grande maioria das vezes ocorre em mulheres (90%) na faixa dos 30 aos 60 anos de idade, embora não tenha relação com níveis hormonais. Costuma se associar com fadiga, intolerância ao exercício, sono não repousante (isto é, a pessoa acorda cansada), depressão e ansiedade. Dor de cabeça, constipação intestinal, dores na mandíbula, cólicas abdominais, cólon irritável e “esquecimentos” também podem estar associados. Normalmente a fibromialgia aparece depois de eventos graves na vida de uma pessoa, como um trauma físico, psicológico ou mesmo uma doença grave. O mais comum é que o quadro comece com uma dor localizada, que se torna crônica e progride para envolver todo o corpo. O motivo pelo qual algumas pessoas desenvolvem fibromialgia e outras não ainda é desconhecido.

O diagnóstico da fibromialgia:

Uma boa entrevista médica basta para fazer o diagnóstico na primeira consulta e descartar outros problemas. O melhor profissional para avaliar o paciente com fibromialgia é o Reumatologista, pois ele é treinado para fazer o diagnóstico das doenças que acometem os músculos e as articulações, não deixando passar doenças que possam ser confundidas com ela.

Em alguns casos, o médico poderá até pedir alguns exames de sangue e/ou de imagem, não para comprovar a fibromialgia, mas para afastar outros problemas que possam simular a síndrome.

A dor na fibromialgia:

Pacientes com fibromialgia apresentam uma sensibilidade maior à dor do que pessoas sem a síndrome. Alguns pacientes chegam a ter dores quando submetidos ao mais simples toque. Tudo se passa como se o cérebro dessas pessoas ativasse todo o sistema nervoso para fazer a pessoa sentir mais dor. Desta maneira, nervos, medula e cérebro trabalham em conjunto para amplificar as dores, o que já é comprovado por diversos estudos de imagem e de líquor.

Soma-se a isso o fato de que no nosso dia-a-dia ocorrem pequenos traumas, distensões e tensões musculares, que passam despercebidos. Em pessoas com fibromialgia as dores vindas destas lesões são amplificadas, e começa o grande “círculo vicioso” dentro do músculo: a musculatura fica dolorida e contrai (tenciona) e esta tensão leva a mais dor, que tenciona mais o músculo, e assim por diante. A pessoa começa a não dormir bem (vide adiante) e a não se exercitar, o que piora a dor muscular, o estado emocional e a fadiga, piorando o ciclo. Sintomas de depressão e ansiedade também podem piorar o quadro de dor, assim como a piora da dor piora sintomas de depressão e de ansiedade, piorando qualidade do sono e capacidade de se exercitar.

Outra coisa que devemos lembrar é que ter fibromialgia não livra a pessoa de ter outros problemas do sistema musculoesquelético, como bursites, tendinites ou artrites. O médico saberá “separar as coisas” e tratar cada problema de maneira apropriada. Por outro lado, várias dores que a pessoa pense que são oriundas de outros problemas podem ser manifestações exclusivas da Fibromialgia. A musculatura é o sistema mais dolorido na fibromialgia, mas já existe evidência que vários outros pontos do corpo apresentam sensibilidade aumentada, inclusive articulações, cabeça, intestino e bexiga. Assim, dores articulares, cólicas, cólon irritável, bexiga irritável, “enxaqueca”, neuropatias occipitais e bruxismo costumam se associar à Fibromialgia.

O diagnóstico e o tratamento para o controle da síndrome tem sido realizados com êxito pelo Chefe do Serviço de Reumatologia do Hospital das Clínicas Unesp Botucatu – HCFMB, Fábio Vicente Leite (37). Formado e Especializado pela Faculdade de Medicina da Unesp de Botucatu, Vicente é Reumatologista pela Sociedade Brasileira de Reumatologia e atua também na Clínica De Marchi.

“É muito mais confortável para o cérebro humano entender melhor as causas de uma dor quando existe uma inflamação, um machucado, um tumor, um exame alterado. Na fibromialgia não há nada disso. É importante que tanto médico quanto paciente percebam que o problema é real, que está no mecanismo de percepção da dor e em todo o contexto circunjacente a esta desordem, e que quando não controlados, são causa de extremo sofrimento, embora não coloquem em risco a saúde das articulações e dos músculos acometidos”.

As crises de dor na fibromialgia:

A Fibromialgia pode se intensificar em alguns períodos, o que chamamos de “crises”. Costumam se relacionar a períodos de stress, frio ou esforços em demasia em dias anteriores. Pacientes com FM, no dia em que se sentem melhor, muitas vezes querem “recuperar o tempo perdido” e passam a fazer tudo o que não fizeram na última semana, por exemplo. Isto leva a uma volta da dor. Da mesma maneira, atividades de repetição, como lavar e passar roupa, podem desencadear uma crise. Para evitar as crises é preciso dividir as tarefas de casa e do trabalho e fazer um pouco a cada dia, mesmo nos dias em que tudo está bem. Também é importante mudar o tipo de tarefa que se está fazendo, para sempre modificar o grupo de músculos que está sendo usado. Por exemplo, passar parte da roupa e depois ir dobrá-la, varrer somente um cômodo e arrumar as gavetas antes de passar para outro cômodo, etc… As crises da fibromialgia podem melhorar bastante com medidas simples, como repouso e um banho quente. O médico deve ser consultado para checar a necessidade de aumento ou mudança da medicação.

A fadiga e o sono na fibromialgia:

Quase 95% dos pacientes com Fibromialgia apresentam dificuldade de manter um sono profundo (que é o que deixa o paciente “restaurado”no dia seguinte). A pessoa acorda cansada, mesmo que tenha dormido por um longo tempo. Isto aumenta a fadiga, a contração muscular e a dor. Independente se o distúrbio é causa ou consequência da dor, é algo que deve ser avaliado e tratado.

Outros problemas no sono também podem estar presentes. Alguns pacientes referem um desconforto grande nas pernas ao deitar na cama, com necessidade de esticá-las, mexê-las ou sair andando para aliviar este desconforto. Este problema é chamado Síndrome das Pernas Inquietas e possui tratamento específico. Outros apresentam a Síndrome da Apneia do Sono, e param de respirar diversas vezes durante a noite o que, se não adequadamente tratado, leva a queda na qualidade do sono a aumento das dores e fadiga.

O emocional na fibromialgia:

A depressão e/ou transtornos de ansiedade estão presentes em mais da metade dos pacientes com fibromialgia, levando a piora do sono, aumento da fadiga, diminuição da disposição para o exercício e aumento da dor e da sensibilidade do corpo. Eles devem ser detectados e devidamente tratados, se estiverem presentes. Não se deve perder tempo em questionar quem chegou primeiro; tanto a dor quanto as questões emocionais devem ser tratadas de maneira independente.

O exercício na fibromialgia:

“Todos os médicos falam que eu devo fazer exercícios para melhorar da fibromialgia, mas eu não consigo, pois o pouco que eu faço já me causa muita dor no corpo.”

Isto é uma situação muito comum, principalmente no início da atividade física. É importante que o exercício seja iniciado de maneira lenta e gradualmente aumentado, nem que para isso seja preciso fazer, num primeiro momento, apenas 5 minutos por dia de atividade física, com aumentos de 5 minutos a cada semana. A meta é que se chegue a no mínimo 30 minutos por dia, todos os dias, e os resultados podem ser notados tanto nos primeiros meses como até após um ano da nova rotina.

A dor ao realizar-se atividade física pode também ser minimizada com o uso de analgésicos antes de se iniciar o exercício. O paciente não deve ter medo que o analgésico possa mascarar alguma lesão ou piorar a situação. Pelo contrário, o uso de tais medicamentos irá permitir um melhor aproveitamento do momento de exercício.

Devem ser priorizados exercícios aeróbicos, alongamentos diários e, se possível, realizar atividades em água quente, o que promove maior relaxamento muscular.

O tratamento da fibromialgia:

O objetivo do tratamento é fazer o paciente alcançar um nível extremamente baixo de dor. Os outros sintomas como a fadiga, a alteração do sono, ansiedade e a depressão também podem ser tratadas adequadamente. O tratamento da fibromialgia depende muito do paciente. O médico deve atuar mais como um guia do que somente uma pessoa que fornece remédios. É muito importante que a pessoa com fibromialgia entenda que a atividade física regular terá que ser mantida para o resto da vida, pelo risco de tudo voltar se esta atividade for interrompida.

O tratamento da fibromialgia divide-se em quatro pontos principais:

a) Exercícios: este é o ponto mais importante do tratamento. A pessoa com fibromialgia não se pode dar o luxo de não se exercitar. A atividade física regular é o único tratamento capaz de restaurar a pessoa para uma vida normal. Todos os outros passos do tratamento devem ter somente um objetivo: deixar a pessoa mais disposta para fazer atividade física.

b) Controle da ansiedade/depressão: como foi dito anteriormente, não se deve perder tempo pensando se as manifestações de alterações do humor, desânimo e tristeza são a causa ou a consequência da FM. Se estes sintomas estão presentes, devem ser tratados adequadamente. Na maioria das vezes, o reumatologista pode prescrever ansiolíticos ou antidepressivos para o paciente com FM; se o caso for grave, o paciente pode ser encaminhado para um psiquiatra. Existem técnicas psicológicas, como a terapia cognitivo-comportamental, que têm sido estudadas na fibromialgia, com bons resultados. São técnicas de manejo de estresse e de como lidar com as limitações que a fibromialgia traz à vida das pessoas. Estas técnicas podem ser usadas em pacientes com ou sem depressão.

c) Tratamento do sono: o objetivo é melhorar a qualidade do sono, não a sua quantidade. O paciente terá que acordar mais descansado do que quando foi dormir. Para isso, utilizamos remédios específicos para cada caso, levando em conta possibilidade de quadros associados como síndrome das pernas inquietas e/ou síndrome da apnéia do sono. Em casos de dúvida um estudo do sono (polissonografia) pode ser pedido.

d) Tratamento da dor: embora não exista um medicamento que tire toda a dor em um paciente com Fibromialgia. Este é um item importante no tratamento, pois o paciente deve ter a sua dor reduzida a um ponto que permita o início da atividade física. Este ponto tem sido mais valorizado desde que se descobriu que a dor dos pacientes é real. É muito comum que os pacientes esperem até o último minuto para tomarem analgésicos, quando a dor está “insuportável”. Isto leva à piora da dor, pois a dor mal controlada leva à contração muscular, que leva a mais dor. A fibromialgia é um estado de dor crônica, e a dor deve ser tratada cronicamente, isto é, tomando-se analgésicos em horários pré-determinados. Infelizmente, o alívio com os medicamentos não é total na fibromialgia. No entanto, muitas vezes, quando se retiram os medicamentos é que se nota o quanto ele estava sendo útil.

Em muitos casos, são encontrados na musculatura dos pacientes pontos de intensa contração muscular, semelhantes a pequenos caroços: são os “pontos-gatilho”. Estes pontos são focos de dor, e pioram o quadro geral. Quando exercícios de alongamento e compressas quentes não os resolvem, o médico pode lançar mão de técnicas de agulhamentos nestes pontos, que geralmente são bastante efetivas.

Outros tratamentos para fibromialgia:

Vários tipos de tratamento complementares e/ou alternativos já foram testados para a fibromialgia, e muitos deles não ajudaram. Porém, com o melhor entendimento do problema, novas medicações são esperadas em breve.

A acupuntura é um método que pode ajudar em casos de dor localizada e resistente, e é recomendada com certa frequência. Porém, deve se ter em mente que a acupuntura funciona somente enquanto o paciente está sob tratamento, e não tem um efeito duradouro.

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