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As contradições do tornar-se adulto

Voltando as nossas conversas a respeito da psicologia na prática clínica gostaria de desculpar-me pela falta da coluna no mês de Janeiro, porém essa constatação vai exatamente de encontro com o tema que quero tocar com vocês leitores. Definitivamente lamento porque estava atribulada resolvendo uma quantidade incrível de responsabilidades do mundo adulto. As quais me deixaram sem tempo e inspiração. Mas como aprendemos a ser mais amáveis conosco mesmos hoje estou aqui para continuar a coluna com calma e tentando falar de maneira não apressada com vocês.

Exatamente uma situação como essa será o fenômeno (união de fatores que se tornaram comum a mais de um indivíduo), muito, comum que venho atendendo na clínica de psicologia e que está se tornando, a cada dia, mais frequente e intenso nas necessidades e sofrimentos de meus pacientes. No caso: “o se tornar adulto” diante de tantas forças contrárias, pressões sociais e dificuldades que o mundo moderno nos impõe, e que, muitas vezes, nos perguntamos se não daria para voltarmos a ser criança, onde não existam tantas cobranças, dificuldades de todos os gêneros e responsabilidades, que às vezes, nos falta tempo, nos exaure, causa medos/ansiedades, nos paralisa e por ai poderia continuar listando um monte de sentimentos que podem surgir e nos incomodar ou nos causar sofrimentos mentais e no corpo físico.

O título da coluna já expressa essa questão tendo em vista que, enquanto, psicoterapeuta também estive inserida nesse processo de luto da fase infantil para a fase adulta de maneira confusa e conflituosa, que, inclusive, causaram-me medos: essa seria a “Laís humana” olhando-se no espelho, mas com o tempo e experiências até dolorosas e compreensões mais elaboradas da realidade consegui transcender o espelho e ter até a capacidade de auxiliar pessoas que estão em constante processo de amadurecimento social, emocional e psicológico sentindo-se assustadas e pedindo ajuda ou somente “existindo dentro do eu chamo de  ‘incômodo Cômodo’”.

Como é difícil conviver e crescer em uma sociedade em que a maioria das pessoas convive seguindo padrões com valores invertidos, onde o “ter” é mais valorizado que o “ser” e, caso, alguns indivíduos queiram vivenciar a sua personalidade que é única acabam sendo considerados fora do padrão e, consequentemente, colocados fora da manada, a qual corre junta sem se questionar a respeito do por que e para onde está indo. Os avalio então como indo na contramão tentando convencer quem enxerga essa mudança de valores e adoece com a percepção rudimentar dessas contradições de que “eles” precisam procurar ajuda para se enquadrarem.

Então, faço-me um questionamento, quem realmente precisaria de ajuda para alcançar uma vida com uma saúde mental mais plena? e a “Laís Psicóloga” responderia: os poucos que “acreditaram” que estão na contramão por perceberem as inversões e as contradições nos valores pregados, atualmente, e, inclusive, constato que são estes que procuram psicoterapia para, como eu definiria, encontrar ajuda para, na verdade, com o objetivo de aprender a lidar com quem os adoece e a conviver no meio destes e das inconsistências e hostilidades pertinentes a sociedade atual.

Como é difícil fazer essa transição e a aquisição de novos significados e reflexões para as futuras mudanças de compreensões e formas de lidar com o mundo e com as pessoas a sua volta além de tudo que somos cobrados e questionados. O que percebo são pessoas sentindo-se assustadas e acuadas talvez, inicialmente, querendo se esconder e voltar a serem criança porque se sentem oprimidas demais em suas vidas cotidianas e acreditam que nunca conseguiram elaborar novas formas de enfrentamento e fortalecimento pessoal e psicológico.

Nesse ponto lembro-me de quando li o livro “Alice no país das maravilhas” do autor Lewis Carroll (1865), (na minha interpretação com meu olhar de psicóloga) onde Alice na fase de transição da fase infantil para a fase para a adulta busca um mundo diferente, no qual acredita que teria mais liberdade. No entanto, quando estava nesse local, acredito eu, que, talvez, Alice percebeu que se bebesse ou comesse ou cresceria demais e ficaria muito grande para esse mundo que entrou não tendo espaço nele ou pequena demais o que a deixaria desprotegida.

Alice além de tudo aparentou demonstrar encontrar incoerência nesse mundo que existia uma rainha de copas que mandava de maneira cruel e injusta e pessoas como o chapeleiro maluco que seguia as regras de fazer o chá de hora em hora senão seria punido, mas, ao mesmo tempo, esta pessoa parecia a mais amável e coerente, mas  que obedecia por medo de não seguir um padrão definido pela força. Esse “Mundo de maravilhas” que Alice encontrou parece com algum que conhecemos? (pausa para a comédia do mundo adulto através de uma parábola). Tanto não foi boa essa vivência que Alice logo opta por voltar para sua casa e assumir “o seu tamanho”, que a assustava menos, a de criança, que talvez parecesse, então naquele momento muito mais maravilhoso.

Será que, atualmente, como aconteceu com Alice esse choque de realidade não paralisa muitas pessoas ao perceberem que “crescer” exige muita energia e desenvolvimento pessoal e psicológico para lidar com a perda da inocência da infância e, assim, através do processo de luto da perda da inocência infantil existir a necessidade de criar novas formas de lidar e compreender as pessoas e o mundo ao seu redor de maneira mais consciente e madura, o que facilitaria a sua inserção nessa realidade adulta de forma menos traumática e chocante.

Porque percebo nos atendimentos psicológicos, com certa frequência, que no desenvolvimento infantil e nas criações dos pais uma passagem de valores com certa proteção distorcida da realidade, talvez por estes temerem até a possibilidade de um sofrimento dos filhos, mas pouca preparação para o mundo real. Ou até as desordens e as incoerências iniciando nesses lares e sendo repetidas pelos filhos e outros adoecendo psicologicamente já que notam de maneira sutil e não claros para si mesmos que e o porquê sofrem com isso.

Poderia citar inúmeras formas de sofrimentos mentais e adoecimentos físicos desde a negação da realidade até a quebra com a mesma devido a esse desconforto com o que foi imposto e a pessoa não conseguiu aceitar ou se adaptar. Isso é muito do que observo e observei na clínica psicológica e como se torna importante para esses pacientes se apropriarem de quem são, de fato, e como lidarão com o que os fazem sofrer na relação com a vida adulta.

Por isso termino minha coluna dizendo sobre a importância da psicoterapia para que cada paciente com seu conflito pessoal possa desvendar essas incoerências, buscar novos recursos de enfrentamento e fortalecimento da sua personalidade adulta, muitas vezes, recriando-se e desfazendo crenças prontas que os impuseram, já que quando nos apropriamos do que nos aflige, desta forma,  vendo claramente onde dói não precisarão mais esconderem-se, fugirem, anularem-se ou temerem. Claro que, inicialmente, precisamos de um profissional com o objetivo de nos pegar pelas mãos, inicialmente, e nos mostrar novas formas de compreender e lidar com a realidade.

Contudo, o enfrentamento nesse contexto psicoterapêutico torna-se gradativamente algo natural para esses indivíduos. E como é bom “viver em paz em NOSSO tamanho”. E digo “nosso” tamanho no sentido das pessoas escolherem como viver, conviver, defender-se, dar limites, fortalecer sua personalidade que deve ser única sem necessariamente seguir todos os padrões impostos reconhecendo, assim, os seus limites, os seus desejos, os seus objetivos pessoais, a maneira como escolhem viver e se relacionarem com outras pessoas e com a sociedade em geral, entre muitas outras questões pertinentes a essa problemática que poderia aprofundar em outro momento em outra coluna.

Laís Lopes Zimback – Psicóloga CRP 06/112961

 

 

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