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Uma homenagem à miscigenação e a nossos afrodescendentes

Por: Silvia Pereira

Foto: Silvia Pereira

Semana de mudança climática, mês das festas culturais juninas, nosso tema para esta semana é o racismo. Espero que apreciem , caros leitores, a crônica escrita com carinho e respeito, uma homenagem a nossa miscigenação e a nossos negros, mulatos, hoje denominados afro-descendentes, para que haja cada vez mais respeito às diferenças e humanização nas relações.  Assim seja!

Michel era um mulato bonito. Esguio, apresentável e educado para o nível cultural dos alunos da escola na qual estudava. Era filho único. Daí a ideia de ser mimado. Que nada! Sua mãe o concebera em uma viagem turística, a famosa festa de rodeio de Barretos. Empolgou-se com um fazendeiro rico que a prometeu mundos e fundos, e Michel foi o único presente. Teve uma vida de fome, desejos de moleque, de sonhos não realizados e de muitos complexos e infortúnios. Apesar de tudo, sempre concebia o sorriso que mostrava sua arcada dentária de negro, com dentes alvos e alinhados na bocarra coberta pelos grandes lábios carnudos, geneticamente herdados de sua afrodescendência. Era um moleque sorridente e brincalhão.

Nunca entendeu muito a gravidade dos momentos em que todos se reuniram e em uníssono bradavam a um só canto para tirá-lo – “Saia da brincadeira!”, dizendo que era para brancos e “preto” não tinha vez.

Na aula de História, seus professores pareciam falar inglês, ou outra língua sobre aquela tal escravidão. Lembra-se do dia em que a professora de Português leu um texto de um escritor conhecido, Monteiro Lobato. Só conhecia porque assistia todas as manhãs, na televisão, ao “Sítio do Pica-pau amarelo”. O texto trazia como título “Negrinha”, personagem órfã e maltratada na casa de uma senhora rica, morta como um passarinho.

Não entendia disso ainda. Não era verdade que todos morrem um dia? O próprio avô morreu um ano antes, de morte provocada por um tal de Barbeiro.

Na época, a professora, ao ler, começou a chorar pelo envolvimento na história. Sentia pena da menina e dos maus-tratos.  Só compreendera a sensibilidade da professora de Português tempos mais tarde.

Em sua ingenuidade, achava que era coisa de moleque sem educação quando pronunciavam as palavras “tição”, macaco, neguinho-morto-de-fome.

Mas sabia que coisa boa não havia de ser.

Só começou a sentir o preconceito mesmo quando começou a perceber que em seu buço alguns penachos se pronunciavam. Também à volta de seu pênis. E sua voz engrossava prenunciando que estava se tornando homem. Aprendizado com seu avô.

Seu avô era um grande homem. Grande em tamanho, em metro e noventa, um “massa” de negão, forte como um touro, mas grande mesmo por dentro. Dizia sempre para Michel que o mundo é dos espertos e dos fortes, que devemos entender porque nossa cadelinha comeu seus filhotes. O universo tem suas respostas. Por que os trovões que vêm do céu são tão lindos? Como grandes riscos disformes na escuridão da noite, barulhentos e assustadores podem formar a paisagem que atravessa o céu formando um quadro maravilhoso de se ver? Tudo acontece para que entendamos que pra tudo há o lado bom, o belo em contrapartida ao aterrorizante. O feio de interior bonito. Dias ruins para o diferenciarmos de dias bons.

O fardo fica bem mais leve se o espreitarmos e visualizarmos o lado bom e bonito das coisas. Assim, leve como um saco de penas.

Dizia que sua avó, a esposa, foi embora para que ele tivesse mais tempo para brincar com o menino no quintal da grande casa do sítio no qual viviam. Ele seria único para sentir e dar amor, que seria ainda maior, juntaria amor de dois para um.

Voltando à narrativa do amor de Michel, quando sentiu vontade de beijar mulher- sabia um pouco sobre isso – seu avô, mais uma vez, explicou como isso se dá: umas noites mal dormidas, acordando molhado e sentindo uns calafrios quando via as pernas de uma mulher bonita – aí é que sentiu o peso da discriminação.

Sempre achara as mulheres negras bonitas. O fato de ter se engraçado por Luísa nada tinha a ver com a cor da sua pele.  Bem verdade que sua pele alva e aveludada era de dar vontade de tocar. Mas foi pura atração de moleque. E Luisa era diferente. Meiga, quieta, sem frescuras, muito educada, resoluta em seus atos e pedidos de explicação para os professores. Estava, então, no colégio e tinha15 anos. Pagava lanche para Luísa na hora do recreio. Levava anéis de doce, daqueles que vinham colados em geléias nos botecos de esquina, fazia vestidos de papel crepom para vestir sua coleção de bonecas de louça, ajuntava papéis de carta também para sua coleção. E Luísa era branca. Daí veio o maior problema, ao menos achou, a constatação da dura realidade de uma sociedade hipócrita e preconceituosa. Os colegas sempre ressaltaram isso em sua infância. A família dela não aceitaria Michel, um negro, namorando a bela e alva Luísa.  Ledo engano.

O pai de Luísa era “passado das 11”. Sim, assim se dizia para caracterizar um mulato. E Luísa herdou a “branquitude” da mãe, neta de italianos e belgas.

Desta vez, Michel agradeceu a este país e sua miscigenação. Um país que tem coração de mãe e aceita imigrantes e refugiados de guerra desde os tempos antigos.

Casou-se anos mais tarde e fez família, sempre educando para a aceitação das diferenças, para o respeito às etnias, aos mais simples e humildes, negros, brancos, ou seja lá a cor que for. Teve sorte. Nem todos têm. Sorte na história de vida, no amor da família. Nada tinha a reclamar. Era privilegiado.

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