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Como a positividade pode ser tóxica?

O papel das redes sociais contribuem para a idealização da realidade e as consequências de não encarar as mazelas da vida. Isso é o que chamamos de “positividade tóxica”

O autor do best seller “A Sutil Arte de Ligar o Foda-se”, Mark Manson, já dizia: “evitar o sofrimento é uma forma de sofrimento”. E é exatamente nisso que consiste a positividade tóxica.

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Mas como a positividade – ligada a sentimentos bons e frases motivacionais – pode se tornar tóxica? Isso acontece porque esse fenômeno não está atrelado de fato à percepções positivas, mas sim na supressão de sentimentos negativos com a esperança de evitar angústia, medo e pessimismo. Nesse caso, as “frases motivacionais” se tornam apenas cobranças de algo que, na realidade, não se pode controlar. Afinal de contas, ninguém simplesmente escolhe ser feliz.

Mulher ruiva com feição séria com um post it escondendo os lábios com um sorriso desenhado.
A positividade tóxica distorce o conceito de otimismo e reprime sentimentos negativos. /Reprodução: Freepik

O perigo de manter os sentimentos ruins reprimidos é que, com o passar do tempo, deixamos de identificá-los e assim deterioramos a nossa capacidade de lidar com eles, voltando a nos dar conta de sua seriedade apenas quando se manifestam em graus elevados e causam problemas como ansiedade, depressão e bruxismo.

Junto ao hábito de negligenciar sensações negativas, vêm a necessidade de expor nas redes sociais todos os aspectos diários que estão dando certo. Na pandemia, o uso de redes como o Instagram foi ainda mais potencializado e, ainda que aproxime as pessoas que foram obrigadas a se distanciar, isso exerce influência negativa nesse momento. 

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Isso porque, quando unimos essa comparação com a desesperança generalizada que vivenciamos durante a pandemia, facilitamos o perigo de enxergar alegria apenas nas telas dos celulares e não na realidade.

#gratidão: positividade tóxica nas redes sociais

Mulher fazendo uma postura de yoga no topo de uma montanha com o mar ao fundo, típica pose de posts sobre “positividade” e “gratidão” nas redes sociais
O vídeo “O segredo da felicidade” da atriz Maria Bopp exemplifica a maneira como a positividade tóxica se apresenta nas redes sociais

Se antes as redes sociais eram uma vitrine da vida real, agora elas se tornaram o palco principal onde a vida acontece. O isolamento social fez o número de usuários crescer em 40% e as postagens de #gratidao e #goodvibesonly deixaram de ser inspiradoras e se tornaram nocivas.

Criado com o intuito de deixar registrado momentos bons, o Instagram passou a colecionar fotos dos melhores momentos da vida de seus usuários. Porém, com o uso cada vez mais frequente e o surgimento dos influenciadores, há a falsa sensação de que toda a vida do usuário é registrada ali. 

Isso faz com que as pessoas criem expectativas irreais do que é realização, sucesso e felicidade e se sintam pressionadas a estarem felizes o tempo todo.

Ainda que a intenção de quem faz alusão a sentimentos de agradecimento e otimismo nas redes seja promover o pensamento positivo, ver esses posts seguidamente faz com que a felicidade seja idealizada como uma vida sem tristezas e qualquer resquício desse sentimento seja visto com culpa e reprimido.

E ainda há os casos em que os discursos que acompanham as postagens carregam uma mensagem meritocrata e falsamente espiritualizada, insistindo em tratar o bem-estar como uma escolha e afirmar que tudo é possível se houver esforço.

 “Você atrai aquilo que emana”, “é só pensar positivo”, “vibre energias positivas” são exemplos de frases que culpabilizam aquele que está passando por um momento difícil e o faz acreditar que esconder o sentimento de todos – inclusive de si mesmo – é o caminho mais curto para a felicidade.

Mas, além de não funcionar, essa tática traz consequências.

O efeito da positividade tóxica na saúde mental

Mulher sentada no chão escondendo o rosto com as mãos no cabelo, em posição de sofrimento
Para além de problemas individuais, a positividade tóxica pode trazer prejuízos coletivos para a sociedade

Nos desconectar das nossas verdadeiras emoções e manter uma imagem falsamente feliz, seja nas telas, seja na vida, é prejudicial para a nossa saúde.

Ignorado, o corpo aumenta os sinais de que não há espaço para tanto sentimento reprimido e começa a demonstrar sintomas de doenças psicológicas, como a ansiedade. Além disso, a psicopedagoga especialista em neuropsicologia, Teresa Gutiérrez, diz que as consequências da positividade tóxica podem ser ainda piores do que alguns casos de depressão, já que nos mantém isolados das nossas verdadeiras emoções.

A repressão dos sentimentos negativos pode levar as pessoas a uma realidade fantasiosa que deixa comprometido o amadurecimento enquanto indivíduo

Outra preocupação a respeito da positividade tóxica é seu efeito coletivo, já que quando o indivíduo perde a capacidade de identificar e lidar com os próprios problemas, perde também a capacidade de demonstrar empatia por outras pessoas.

Um exemplo clássico é quando frases rasas do tipo “poderia ser pior” ou “pense pelo lado positivo” são usadas para consolar alguém e acabam por invalidar os sentimentos do próximo.

O psiquiatra Daniel de Barros aponta prejuízos ainda mais sérios que afetam o desenvolvimento da sociedade a longo prazo, já que negligenciar sentimentos ruins pode evoluir para negar situações e contextos indesejados, seja na Política, na Saúde ou em qualquer outra esfera pública.

O resultado disso é o negacionismo, que se embasa na recusa de conflito e forma uma realidade artificial que nega os problemas sociais em vez de enfrentá-los.

A positividade pode, também, ser boa…

Como lidar então com os sentimentos negativos se não reprimindo-os? Calma, ninguém sugere que você se afogue na tristeza, mas sim que encare a realidade e busque opções a partir dela. Isso sim é otimismo de verdade; enxergar alternativas novas, olhar de outras perspectivas para conseguir encontrar uma maneira menos nociva de lidar com as adversidades.

Apesar do perigo da positividade quando exagerada, é importante que ela esteja presente no dia a dia em níveis saudáveis, principalmente se relacionada a resiliência. Saber lidar com os problemas e aprender a sair mais forte deles, ao contrário de bloqueá-los, é o que nos faz de fato ficarmos bem com nós mesmos.

Por: Eduarda Motta – Jornal Junior – Unesp/Bauru

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